31 dezembro 2016

REVIEW | Letras Escarlates, Anne Bishop


Título: Letras Escarlates
Autor: Anne Bishop
Editora: Saída de Emergência
Data desta edição: 2015
Páginas: 510
ISBN: 9789896377397
Classificação Pessoal: 
Goodreads: aqui
Temáticas: 



Este foi a minha estreia com a autora e, digo-vos já, fiquei fascinada, não só pela sua escrita, como pela imaginação e criatividade.


Este livro traz-nos a história de convivência (ou não!) entre os humanos e os Outros, seres sobrenaturais que dominam Namid. Aqui, os humanos não são mais do que mera carne para estes seres e, à mínima falha, viram as suas presas. No entanto, apesar de os Outros serem reconhecidamente mais fortes, a sua relação mantém-se num certo equilíbrio, com o reconhecimento de que ambas as partes possuem bens necessários, uma à outra: os Outros possuem água e terra; os humanos, tecnologia. 


Logo no início da história entramos no Pátio de Lakeside, com Meg, uma fugitiva que vem procurar refúgio por aqueles sítios e que vai acabar por modificar a relação entre os seres humanos e os Outros (uma diversidade enorme de metamorfos: ursos, lobos, corvos, falcões, coiotes, ...). Lakeside é um espaço de convivência entre eles e é gerido por Simon que acaba por contratar Meg como Intermediária (um posto que consiste basicamente em trabalhar com a distribuição de correspondência e encomendas), apesar de se aperceber de que Meg é diferente dos restantes humanos que já conheceu.

Lakeside é regido por regras bem definidas, num sistema social e político muito bem descrito pela autora. Tudo é apresentado de forma consistente, não há pontas soltas, o que me agradou bastante.

À medida que o tempo vai passando, Meg começa a realizar o trabalho como nunca ninguém antes o havia feito e vai sendo acarinhada por todos os habitantes e pelos humanos que diariamente entregam encomendas para serem distribuídas naquela região. Gostei bastante da forma como a autora conseguiu transmitir esse carinho entre Meg e todos eles, um carinho que também acaba por ser partilhado por nós, leitores, que acompanhamos a descoberta do mundo por esta rapariga, que viveu tanto tempo encarcerada. Meg é curiosa e muito observadora, ao mesmo tempo doce e receosa, em determinadas situações - bastante compreensível, já que está a descobrir o mundo pela primeira vez.


É Meg quem vai desvendar algumas profecias do que está para acontecer àqueles metamorfos. Mas será que ela vai conseguir protegê-los de tudo o que de mal está para vir? Isso já terão que descobrir por vocês 😏 .


As personagens estão muito bem concebidas e caracterizadas, mesmo de forma indirecta, através das suas acções e pensamentos. Por exemplo, adorei o facto de não termos aqui a imagem do lobo fofinho; temos um lobo com sentimento, sim, mas que mantém a parte da fera e o seu instinto animal, que olha para um humano com os olhos de presa e que o vê como alimento. Simon mantém sempre a posição de alfa e está sempre à frente das decisões em prole da sua comunidade. Gostei muito da relação que se foi criando entre Meg e Sam, uma personagem enternecedora e cativante que Meg acaba por transformar.


No que respeita a Tess, está envolta em mistério e o final do livro deixa-nos ansiosos por explorar o que aí vem a seguir. Adorei as Elementais e o seu papel na história, assim como os Póneis, especialmente no episódio em que eles resmungaram por não haver mais açúcar e tentam passar uns à frente dos outros, na fila, para conseguirem a sua recompensa. Asia é a vilã da nossa história e, como boa vilã, é interesseira, manipuladora e falsa. Embora pouco explorada, esta personagem está também muito bem construída.

E o romance? Apesar de haver ali uma relação muito próxima entre duas personagens, não há nada de muito específico. É tão bom encontrar um história em que o romance não seja a preocupação principal do autor!



É impossível não gostar deste mundo. Tudo tão bem construído e fundamentado, criações de personagens incríveis, situações, espaços... tudo! Só vos posso dizer: que imaginação! E que mestria, na hora de passar tudo para o papel! Este é, sem dúvida, um dos melhores livros de fantasia que li este ano e vai entrar para os meus favoritos de sempre. 

14 dezembro 2016

REVIEW | História em Pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar, de Maria Cecília


Título: História em Pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar
Autor: Maria Cecília
Editora: Chiado Editora
Data: 2016
Páginas: 160
ISBN: 
Classificação Pessoal: 
Goodreads: aqui
Temáticas: Infância, família, emigração, 


Foi com grande entusiasmo que aceitei o convite proposto pela autora para a leitura do seu livro, editado no verão deste ano. A sinopse despertou-me o interesse e - tenho que ser franca convosco -  a capa também! A propósito, não é linda?


Posso começar esta opinião a dizer que adorei fazer esta leitura? 💓 Cinco estrelas!

Como o próprio título nos desvenda, esta é a história em pedacinhos, com capítulos curtinhos e inúmeras peripécias, da nossa protagonista: uma menina que inicia a narrativa com seis anos e que vai recordando diversos episódios passados. Uma menina que vamos vendo crescer, ao longo daquelas páginas e de todas aquelas lembranças.


A autora traz-nos a história de uma família que se vê obrigada a emigrar do país, em busca de uma melhor qualidade de vida, "o lugar propício para realizar todos os sonhos, uma terra jovem e próspera à beira do mar das Caraíbas, deslumbrada pela riqueza do petróleo, onde tudo parecia ser possível" (pág. 21)

O primeiro a viajar é o pai e, algum tempo depois, a esposa e a filha, abandonam a ilha da Madeira para se lhe juntarem. Marcou-me a leitura da passagem em que ela,  que desde pequenina se habituou a viver sem o progenitor, está agora ansiosa por conhecê-lo, esperando que quando o momento chegar se faça um clique e ela instantaneamente o reconheça:

- Olha ali! É aquele! O da camisa amarela!
Sei que olhei, acenei... e fechei dentro de mim 
uma amálgama de sentimentos e emoções inexplicáveis. 
Nesse momento, descobri que o meu pai era, afinal, 
um estranho, um estranho de camisa amarela, um rosto 
igual a outros tantos... não se deu o milagre. 
(pág. 17)


É na voz desta menina que vamos conhecendo a sua história de vida, que é também a história dos seus pais e dos irmãos que vão nascendo (no fim serão oito!), da terra onde vive e daquela que deixou, mas que visita regularmente através das memórias que a mãe partilha consigo. No fundo, é uma história de vida, com o primeiro amor; a presença da religião; a escola e as dificuldades sentidas num país onde mal se fala a sua língua; as dificuldades económicas com o aparecimento de ditaduras nos finais dos anos cinquenta; a opressão e o medo sentidos; a constante ruína dos negócios e empregos do progenitor que foram obrigando a família a mudar-se para cidades diferentes, por diversas vezes. E com o falhanço desses negócios, o apagar de um sonho (comum a tantos emigrantes) de construção de uma casinha na aldeia...

A casa onde habito não é a casa onde moro. 
(pág. 71)



Apesar de viver algumas das dificuldades dos pais e de ter sido uma menina que se viu obrigada a crescer rapidamente pelas circunstâncias da vida, a nossa protagonista brincava a subir às árvores (pelo menos até ser apanhada por um enxame de vespas!) mas também gostava de ler jornais e revistas "particularmente as Selecções do Ryder Digest que o meu pai comprava todos os meses" (pág 106), tendo sido através dessas publicações que conheceu algumas das principais obras da literatura mundial. É curioso como conseguimos ver claramente o crescimento e amadurecimento desta personagem, ao longo da história.


Enfim, trata-se de um livro cheio de pequenas memórias, rico em histórias simples e comuns às nossas, pelo que tenho a certeza que se vão conseguir rever em inúmeras das situações apresentadas. Um ponto a favor para se conseguirem relacionar com esta bela personagem, tão bem construída.


A escrita é simplesmente deliciosa. É fluída e simples, parece que sentimos a autora sentada conosco a contar-nos pessoalmente estes episódios. Senti-me bastante próxima do que nos é contado e das personagens que habitam nestas linhas. Para além disso, tem pitadas de humor e ironia e, por uma ou outra vez, consegue-se perceber o engenho de dizer algumas das coisas nas entrelinhas.



E a capa? Já vos disse que adoro? 😀  A Chiado está de parabéns!

E podia continuar por aqui a falar-vos sobre esta minha leitura. Podia, mas não vos quero estragar a surpresa.


Um livro recomendadíssimo para quem gosta de histórias bonitas (embora nem sempre doces!) de vida. Lê-se super rápido e aposto que não vão conseguir parar.

E o final? Fica assim um cheirinho que me levou a pensar que esta história poderia ter continuação. Será? Por favor! Gostava de saber o que aconteceu a esta menina que acabou por partir à descoberta de um novo mundo...

O que importa é que estou no mundo. Do lado de fora.
(pág. 160)

08 dezembro 2016

REVIEW | O lar da Senhora Peregrine para crianças peculiares, de Ransom Riggs


Título: O lar da senhora Peregrine para crianças peculiares
Autor: Ransom Riggs
Editora: Contraponto
Data: 2012
Páginas: 344
ISBN9789896661281
Classificação Pessoal: 
Goodreadsaqui
Temáticas: Amizade, fantasia, superação das nossas dificuldades 


Quem me dera começar esta opinião dizendo que adorei esta história, de tantas expectativas que tinha em relação à mesma. Mas não foi isso que aconteceu...

A meu ver, este livro prometia ser macabro, não só pela intriga com crianças com habilidades peculiares, como pelas fotografias.  ~ A sério, estas fotos quase que me dão um arrepio na espinha!!  ~ A sinopse assim o prometia:


Neste livro, encontramos a história de Jacob, um rapaz de 16 anos que cresceu a ouvir as histórias mirabolantes do avô, sobre um orfanato para onde ele tinha ido, na época da guerra, depois de perder a sua família. Nessa casa acabou por fazer novas amizades e conhecer crianças com habilidades bastante especiais. 


Anos mais tarde, Jacob acaba por ter contacto com algumas das fotografias que o avô lhe tinha mostrado. Fotos antigas, a preto e branco, onde se podiam ver algumas dessas crianças "especiais". Agora, mais velho, consegue detectar alguns erros naquelas imagens, algumas montagens que não tinha percebido quando era mais pequeno. Acaba por concluir que a restante família talvez tivesse razão em achar que o avô tinha uma mente muito fantasiosa.

Depois de algumas idas ao psiquiatra e de não conseguir ultrapassar alguns dos pesadelos que começou a ter, decide fazer uma visita à ilha onde se encontra o lar onde o avô viveu durante alguns anos. E aí a aventura começa...



Muitas pessoas se queixam do ritmo lento deste livro. Tenho de concordar... arrasta-se um pouco a intriga naquelas páginas iniciais. No entanto, no meu caso, a curiosidade era tanta que queria ver onde é que aquilo ia dar..


E... a expectativa acabou por não ser cumprida. Apesar da escrita de Ransom Riggs ser bastante simples e cativante, a história não me convenceu. As fotos não funcionaram comigo, senti-me perdida no meio de realidade e fantasia: as fotos puxavam-me para o mundo real e o ambiente da história, para a fantasia. Mas não me consegui encontrar ali pelo meio. 

Com grande pena minha, também não me consegui relacionar com as personagens. Não adorei a caracterização, não consegui criar qualquer sentimento por nenhuma delas 😟 Pareceram-me muito superficiais, nem vos sei explicar...


Para além disso tudo, acabei por conseguir descobrir ali algumas das peripécias e revelações de personagens que se iam passar mais à frente.

No que concerne à parte gráfica, a editora está de parabéns: o livro é lindíssimo! Acho que conseguem perceber pelas fotos...


Apesar da originalidade, achei a história muito... básica. E é pela originalidade do tema e escrita que dou as 3 estrelas.


No entanto, o segundo livro da série foi-me oferecido por uma amiga e vou, com toda a certeza, lê-lo. Talvez tenha uma grande surpresa quando pegar nele (espero que sim!).