14 dezembro 2016

REVIEW | História em Pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar, de Maria Cecília


Título: História em Pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar
Autor: Maria Cecília
Editora: Chiado Editora
Data: 2016
Páginas: 160
ISBN: 
Classificação Pessoal: 
Goodreads: aqui
Temáticas: Infância, família, emigração, 


Foi com grande entusiasmo que aceitei o convite proposto pela autora para a leitura do seu livro, editado no verão deste ano. A sinopse despertou-me o interesse e - tenho que ser franca convosco -  a capa também! A propósito, não é linda?


Posso começar esta opinião a dizer que adorei fazer esta leitura? 💓 Cinco estrelas!

Como o próprio título nos desvenda, esta é a história em pedacinhos, com capítulos curtinhos e inúmeras peripécias, da nossa protagonista: uma menina que inicia a narrativa com seis anos e que vai recordando diversos episódios passados. Uma menina que vamos vendo crescer, ao longo daquelas páginas e de todas aquelas lembranças.


A autora traz-nos a história de uma família que se vê obrigada a emigrar do país, em busca de uma melhor qualidade de vida, "o lugar propício para realizar todos os sonhos, uma terra jovem e próspera à beira do mar das Caraíbas, deslumbrada pela riqueza do petróleo, onde tudo parecia ser possível" (pág. 21)

O primeiro a viajar é o pai e, algum tempo depois, a esposa e a filha, abandonam a ilha da Madeira para se lhe juntarem. Marcou-me a leitura da passagem em que ela,  que desde pequenina se habituou a viver sem o progenitor, está agora ansiosa por conhecê-lo, esperando que quando o momento chegar se faça um clique e ela instantaneamente o reconheça:

- Olha ali! É aquele! O da camisa amarela!
Sei que olhei, acenei... e fechei dentro de mim 
uma amálgama de sentimentos e emoções inexplicáveis. 
Nesse momento, descobri que o meu pai era, afinal, 
um estranho, um estranho de camisa amarela, um rosto 
igual a outros tantos... não se deu o milagre. 
(pág. 17)


É na voz desta menina que vamos conhecendo a sua história de vida, que é também a história dos seus pais e dos irmãos que vão nascendo (no fim serão oito!), da terra onde vive e daquela que deixou, mas que visita regularmente através das memórias que a mãe partilha consigo. No fundo, é uma história de vida, com o primeiro amor; a presença da religião; a escola e as dificuldades sentidas num país onde mal se fala a sua língua; as dificuldades económicas com o aparecimento de ditaduras nos finais dos anos cinquenta; a opressão e o medo sentidos; a constante ruína dos negócios e empregos do progenitor que foram obrigando a família a mudar-se para cidades diferentes, por diversas vezes. E com o falhanço desses negócios, o apagar de um sonho (comum a tantos emigrantes) de construção de uma casinha na aldeia...

A casa onde habito não é a casa onde moro. 
(pág. 71)



Apesar de viver algumas das dificuldades dos pais e de ter sido uma menina que se viu obrigada a crescer rapidamente pelas circunstâncias da vida, a nossa protagonista brincava a subir às árvores (pelo menos até ser apanhada por um enxame de vespas!) mas também gostava de ler jornais e revistas "particularmente as Selecções do Ryder Digest que o meu pai comprava todos os meses" (pág 106), tendo sido através dessas publicações que conheceu algumas das principais obras da literatura mundial. É curioso como conseguimos ver claramente o crescimento e amadurecimento desta personagem, ao longo da história.


Enfim, trata-se de um livro cheio de pequenas memórias, rico em histórias simples e comuns às nossas, pelo que tenho a certeza que se vão conseguir rever em inúmeras das situações apresentadas. Um ponto a favor para se conseguirem relacionar com esta bela personagem, tão bem construída.


A escrita é simplesmente deliciosa. É fluída e simples, parece que sentimos a autora sentada conosco a contar-nos pessoalmente estes episódios. Senti-me bastante próxima do que nos é contado e das personagens que habitam nestas linhas. Para além disso, tem pitadas de humor e ironia e, por uma ou outra vez, consegue-se perceber o engenho de dizer algumas das coisas nas entrelinhas.



E a capa? Já vos disse que adoro? 😀  A Chiado está de parabéns!

E podia continuar por aqui a falar-vos sobre esta minha leitura. Podia, mas não vos quero estragar a surpresa.


Um livro recomendadíssimo para quem gosta de histórias bonitas (embora nem sempre doces!) de vida. Lê-se super rápido e aposto que não vão conseguir parar.

E o final? Fica assim um cheirinho que me levou a pensar que esta história poderia ter continuação. Será? Por favor! Gostava de saber o que aconteceu a esta menina que acabou por partir à descoberta de um novo mundo...

O que importa é que estou no mundo. Do lado de fora.
(pág. 160)

2 comentários: